Dislexia Adquirida Oficial
por Anna Lou  Olivier (Ana Lourdes de Oliveira)
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 Era uma linda e ensolarada manhã, eu e meus amigos estávamos na praia. Um dos amigos, dizendo-se “jornalista” perguntava o que eu achava do amontoado de lixo que os “farofeiros” deixavam na praia e apontava um microfone imaginário em minha direção enquanto eu respondia:


- Ah, eu acho esta atitude dos farofeiros um verdadeiro lixo!


Rindo muito, alguém nos lembrou que estava na hora do nosso costumeiro mergulho. Eu nadava muito bem e por isso sempre ganhava a corrida que apostávamos a nado no mar. E naquela manhã, como sempre, eu ganhei mas algo diferente ocorreu. Quando levantei a mão e gritei: “ganhei!”, um redemoinho se formou do nada e me envolveu. Tão forte estava o redemoinho naquele dia que morreram quarenta e cinco pessoas só naquele mesmo pedaço de mar onde eu me afoguei...


Eu só via água girando por todos os lados. Nadei mas não consegui sair do redemoinho, também não foi possível boiar, duas atitudes que se deve ter ao enfrentar “os fenômenos do mar” como dizia meu pai... cinco rapazes foram tentar me salvar mas acabaram se afogando também... eu mascava chiclete o tempo todo e foi o que me evitou engolir água... nas raras vezes em que eu conseguia vir à tona eu dava uma respirada e logo a água me “sugava” de novo, não antes de ver a expressão de terror da tia da minha amiga Rita.


Éramos muito cuidadas por nossos pais e só íamos à praia acompanhadas por algum adulto. Naquela manhã, a missão de olhar as três adolescentes (eu, Rita e uma outra menina que eu não consigo lembrar quem era) era da Sônia, tia da Rita... Eu podia ver a expressão aterrorizada da Sônia e ouvia a Rita gritando “Cadê o golfinho” em meio ao seu afogamento. (era uma piada que o salva-vidas contava, se nos afogássemos e ele não estivesse por lá, deveríamos procurar um golfinho pra nos salvar e ela acreditou, coitada!).


Sim, a Rita e a outra menina também se afogaram mas elas não estavam no redemoinho que entrei. Elas estavam a uns três metros de distância e acho que se afogaram por osmose rsss. De qualquer forma, a Sônia mais tarde disse que não conseguiria jamais esquecer as expressões que fazíamos aos nos afogarmos e que ela só estava aguardando o desfecho, se nós não conseguíssemos nos salvar, ela se atiraria ao mar e se afogaria também só pra não ter que explicar para nossas mães que tínhamos morrido...


Ainda havia um detalhe, eu não parava de pensar no baile do Hawaí. Eu amava dançar, desde antes mesmo de conseguir andar eu já me agarrava aos móveis e dançava diante de qualquer som que ouvisse. E o baile do Hawaí era uma grande paixão, eu me preparava meses antes, desenhando meu próprio modelo de vestido, enlouquecendo a costureira com os detalhes que queria... Durante meu afogamento eu só pensava que eu não podia ser tão azarada, eu poderia morrer em qualquer dia, menos no dia do baile...


Não sei ao certo quanto tempo fiquei sem respirar ou nos debatemos até que um milagre aconteceu, um adolescente surfista, usando sua prancha, conseguiu nos tirar do redemoinho... Ainda atordoada pelo afogamento eu disse que precisava agradecer ao “loirinho que nos salvou”. Alguém me disse: Ele se chama Marcelo! Olhei em volta mas o rapaz já não estava lá. Foi a última cena que me lembro antes de ver tudo escurecer e, na sequência, ficar desmemoriada, perder a capacidade de leitura e de falar idiomas estrangeiros...


Mesmo nestas condições, eu fui ao baile, mas eu via todos de forma distorcida e uma sensação horrível de não existir, de ter morrido e esta não ser eu...


Consultei vinte e cinco dos melhores especialistas, inclusive dois estrangeiros e ninguém sabia o que eu tinha e menos ainda como me tratar... Fui desenganada por todos eles que diziam que eu estava condenada a nunca mais conseguir ler e nunca mais recuperar minha memória...


Eu passava horas sentada na mureta da praia, olhando as ondas que vinham e iam e ficava pensando em que ponto daquele imenso mar estavam minha memória, minha vida, minha existência. Continuava vendo tudo de forma distorcida, letras então passaram a ser apenas um amontoado de sinais sem nexo, eu não lia mais nada e, pertencendo a uma família de poliglotas (meu pai falava oito idiomas, meu irmão atualmente fala seis), eu era fraquinha, só falava Inglês e Francês e agora nem isso eu falava mais...


Acabava de fazer algo, esquecia, não lembrava de minha família, meus amigos, nomes de objetos... Olhava no espelho e não sabia o que era aquilo que se refletia à minha frente... Mas eu continuava escrevendo perfeitamente e foi ai que comecei a escrever diários, registrava tudo que eu via, o que fazia, o que comia, embora eu não distinguisse um pedaço de pizza de uma maçã ou berinjela, eu perguntava o que era aquilo que estávamos comendo e escrevia...


Foi escrevendo inúmeros diários que eu, de repente, me vi escrevendo uma peça teatral que eu intitulei “Eu inteiro, metade de mim”. Era assim que eu me sentia, inteira mas pela metade... Um texto forte demais que não sei de que arquivo da minha mente eu tirei... Nesta época eu já estava fazendo teatro por sugestão do melhor conceituado neurologista brasileiro da época. Ele também aconselhou minha mãe a me levar para “cuidar do espiritual” e foi uma fase horrível, passei por rituais que me feriram o corpo e o espírito, então nem vou relatar...


Dos meus diários surgiram poesias, contos, peças teatrais e uma ideia fixa: Descobrir o que eu tinha, o que me fazia ter a sensação de não existir e não conseguir mais ler nada. Logo eu que amava ler agora não distinguia mais uma letra da outra...


Eduardo, era um garoto que fazia tudo que eu pedisse, eu às vezes me lembrava dele, às vezes apagava tudo e eu nem sabia quem era ele mas ele continuava sempre ao meu dispor. Ele falava e lia bem Inglês e alemão e, depois dele ler uns tres livros em Inglês para mim eu cismei com um livro grande,  todo escrito em alemão que pegamos numa biblioteca. Pedi a ele para ler para mim. Levou quase um mês para ele ler tudo mas, ao final, eu tinha a resposta. Minha perda da capacidade de leitura tinha um nome, ao menos para os alemães, era Dislexia... E eu tinha certeza de ter adquirido esta dislexia no afogamento...


Tudo anotado, passei a visitar todos os médicos que me atenderam e relatar que eu tinha descoberto o que eu tinha mas eles não me deram ouvidos. Percebi que estava sozinha nesta descoberta e eu mesma teria que desvendá-la por inteiro. Durante mais de dois anos o Eduardo e outros amigos leram muitos livros enquanto eu anotava todos os detalhes... Quatro anos depois eu já conseguia ler alguma coisa, ainda com dificuldade, mas lia e continuava escrevendo muito bem, foi quando entrei na primeira faculdade, hoje equivale a Artes Visuais mas, na época era Educação Artística e, na sequencia fiz bacharelado em Artes Cênicas e uma extensão em Musicoterapia...


Ainda não sabia o que causou minha dislexia adquirida mas já sabia como lidar com ela e suas fases mais agudas... Foi estudando Psicanálise que, anos mais tarde, eu entendi finalmente o que tinha ocorrido com meu cérebro: Eu tinha sofrido uma anoxia (ou hipóxia) e passei a me preocupar com os bebês que sofrem esta privação de oxigênio durante o nascimento... Estudando Psicopedagogia e Neuropsicologia pude enfim, ligar minhas pesquisas e passei a publicar artigos e livros sobre diversos distúrbios, com ênfase em dislexias e anoxia perinatal (ou hipóxia neonatal).


No inicio, muito ridicularizada até por professores por ter base artística e por ser eu própria disléxica, mesmo assim, insisti e consegui comprovar minhas teses... Especializei-me também em Medicina Comportamental na UNIFESP, fiz duas especializações em Dependência Química também na UNIFESP, antes disso, estudei TOC e Tourette no HC-USP, participei da fundação da ASTOC, coligada ao PROTOC na época... Estudei paixões obsessivas. Tornei-me também Jornalista, Dramaturga, Apresentadora de TV. Cheguei a fazer Mestrado em Ciências Humanas mas saí com certificado especial por não conseguir, de forma alguma ter fluência em Inglês... Mas isso é só um detalhe...


Hoje tenho dez livros didáticos escritos e publicados, dezoito peças teatrais, inúmeros contos, poesias publicadas avulsas e em antologias, artigos publicados em revistas especializadas, sou precursora da Multiterapia. E meu maior orgulho é ter vencido minhas limitações e ter ido além, ter conseguido comprovar a existência de um distúrbio adquirido e hoje ele está oficializado pela Ciência da Saúde em Inglês, Português e Espanhol... Mas dois fatores me entristecem, é ver que até meus colegas, pessoas que leram meus livros, basearam teses em meus estudos, citam hoje a Dislexia Adquirida sem sequer mencionarem toda a minha luta e pioneirismo e, pior, alguns profissionais ainda insistirem em classificar a Dislexia apenas como genética/hereditária, citando estudos já ultrapassados e sem aplicação na prática.


Mas sei que, mesmo que as pessoas nunca reconheçam minhas descobertas e todo o meu pioneirismo, o Universo reconhece e isso é que importa. E o melhor é hoje poder ir ao mar sem a sensação de ter sido roubada por ele. Hoje eu sei que o mar não roubou parte de mim como eu pensava, ele fez brotar em mim, uma outra parte que estava adormecida, ele fez eu perceber o quanto sou forte e vencedora, porque graças a tudo que me aconteceu de ruim eu pude refletir todo o conhecimento e o bem dentro de mim...


Talvez este relato pareça um dos inúmeros contos que tenho escrito mas é minha vida real. Se eu me conformasse com o diagnóstico (ou veredicto?) dos profissionais que me atendiam eu poderia hoje estar pedindo ajuda mas eu estou aqui oferecendo soluções. Eu lutei muito, estudei e pesquisei muito e hoje eu ensino os diferentes sintomas dos distúrbios que podem até ser adquiridos num acidente. Eu ensino a entender o que é e o que não é dislexia, o que parece mas não é dislexia, eu abordo o tema de forma simples e objetiva, sem rodeios. E eu tenho o conhecimento científico mas eu também tenho o conhecimento do que é ser paciente. Aproveite esta que já é a terceira fase que estou ministrando. Participe da palestra "Dislexia sem rodeios". Saiba mais,  

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